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OUTRAS LETRAS

   

O AVÔ CAVERNOSO
[José Afonso / José Afonso]


O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inúteis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva

Ó avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas

VISÕES FICÇÕES
[António Variações / António Variações]


Já vejo o mar a crescer
Onda gigante a varrer
Só vejo corpos a boiar

Vejo a cidade a ruir
E o chão que se está a abrir
Só oiço gente a gritar

Ai, que eu estou a delirar
O que é que eu estou a inventar?
Não vos quis impressionar
São tudo fantasias que o cinema projectou no meu olhar
São as velhas profecias que o vidente deixou escrito para assustar

Já vejo a vida a fugir
Da força de resistir
Já não consegue respirar

Do céu eu vejo descer
O fim em cargas a arder
Já ouço a terra estoirar

Ai, que eu estou a delirar
O que é que eu estou a inventar?
Não vos quis impressionar
São tudo fantasias que o cinema projectou no meu olhar
São as velhas profecias que o vidente deixou escrito para assustar

Ai, que eu estou a delirar
O que é que eu estou a inventar?
Não vos quis impressionar
São tudo fantasias que o cinema projectou no meu olhar
São as velhas profecias que o vidente deixou escrito para assustar

Não vos quis impressionar
Não vos quis impressionar
Impressionar...
Impressionar...
...

MÃE
[Tim / Xutos & Pontapés]


Mãe Mãe tenho ciúmes do pai
Mãe Mãe quando se deita contigo Mãe
E te chupa nas tetas
E te esborracha os seios
E se monta em ti
E se vem depois Mãe

Mãe Mãe eu não suporto o pai
Mãe Mãe eu vou dar cabo do pai
Quando ele diz Mãe
Gosta de mim Mãe
Quando ele diz Mãe
Gosta de ti Mãe
Quando ele diz Mãe
Que nos ama aos dois Mãe
E depois bate sem fim

Eu vim cá pra fora
Toda a gente chora
Toda a gente berra
Foste tu Foste tu
Foste tu Foste tu

Mãe Mãe eu já matei o pai
Mãe Mãe foi uma morte sem dor
Agora sou só eu Mãe
Agora és só tu Mãe
Agora somos só dois
E depois E depois

Mãe Mãe morreste também
Mãe Mãe traíste-me assim
Agora sou só eu Mãe
Eu provoquei o fim Mãe
Agora sou só eu Mãe
Eu provoquei o fim Mãe
Agora sou só eu Mãe
Eu provoquei o fim Mãe
Agora sou só eu Mãe Mãe Mãe Mãe

Eu vim cá pra fora
Toda a gente chora (etc.)

 

DOMINGO FUI ÀS ANTAS
[Carlos Tê / Rui Veloso]


No Domingo fui às Antas
Vim de lá tão triste e tão seco
Entrei no tasco da esquina
E afoguei tudo num caneco
Tudo num caneco
Tudo num caneco

E depois Segunda-Feira
Até me doía nos ossos
Quando nisso penso fico logo seco
Mandei vir uns tremoços
E afoguei tudo num caneco
Tudo num caneco
Tudo num caneco

Desci Santos Pousada
A cantar à meia-noite
A mulher estava já deitada
Vomitei ao entrar na cama
E ela ficou tão danada
Até diz que não me ama
Não me ama (não te ama)
Não me ama (não te ama)

Desci Santos Pousada
A cantar à meia-noite
A mulher estava já deitada
Vomitei ao entrar na cama
E ela ficou tão danada
Aaaaaaaahhh aaahhh aah
Não me ama (não te ama)
Não me ama (não te ama)

KAYATRONIC
[Corpo Diplomático]

Querido amigo envelhecemos e em cada dia mais uma ruga de camarim, vejo como comes de garfo de plástico eléctrico e de prato de papel amachucado e comes com uma boca que te mantém a fome, estômago cheio de carne, mas expeles detergente e expeles bolas de sabão, mas eu não quero que pares, quero que estoires, hás-de morrer cheio de barulhos nos intestinos, hei-de dançá-los, amplificá-los e gravá-los em fita magnética, para depois os passar no dia do teu funeral e então já teremos alguma coisa em que pensar juntos; escuta ha ha ha ha ha ha a liberdade é tua quando quiseres, a prisão é tua quando quiseres, o medo é teu quando quiseres, o amor é teu quando quiseres, a morte é tua quando quiseres, a vida é tua quando quiseres, tu és deles quando quiseres, tu és teu quando quiseres.