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CORAÇÕES FELPUDOS

   

VENTOS ANIMAIS
[Zé dos Eclipses / Carlos Fortes]


São ventos animais,
Rugidos, trovões,
Crescem dentro, dentro
Até nunca mais.

São feras nos quintais,
Corações felpudos,
Saltam dentro, dentro
Em acrobacias bestiais.

São anjos desleais,
Agentes secretos,
Do fundo, dentro, dentro
Sopram vendavais.

São ventos animais,
Doenças, traições,
Crescem dentro, dentro
Até nunca mais.

OLHO DA MÁSCARA

INSTRUMENTAL

DESMAIA, IRMÃ, DESMAIA
[Zé dos Eclipses / Zé dos Eclipses]


Na velha mansão ao poente
Mulheres de olhos esvaídos
Quietas, abandonam-se ao vento,
Claustros na luz esquecidos.

Como um anjo a chorar
O sangrar de rosa fulvas,
Ronda a noite o dolente arfar
Da beleza das viúvas.

Desmaia, irmã, desmaia.
Desmaia, irmã, desmaia.

Sombras invadem os corredores,
Gritos e lâminas afiadas
Tingem de sangue os lençóis,
Bandeiras no amor desfraldadas.

E o sol deita-se cansado
Enquanto os santos desfigurados
Deslizam com a morte
Num sono profundo.

Desmaia, irmã, desmaia.
Desmaia, irmã, desmaia.

Na velha mansão ao poente
Mulheres de olhos esvaídos
Quietas, abandonam-se ao vento,
Claustros na luz esquecidos.

Como um anjo a chorar
A beleza das viúvas
Ronda a noite o último arfar
Do sangue, entornado em golfadas turvas.

Desmaia, irmã, desmaia.
Desmaia, irmã, desmaia.

FOGO FÁTUO
[Zé dos Eclipses / Carlos Fortes]


Ai, a vida é um sonho
E este punhal uma ilusão
Que seguro firme contra o corpo,
Metal frio de carne sedento

Entre a noite e a tua morte
Comunica-se um hálito secreto,
Uma atracção indizível
Que o fio da lâmina pressente.

Na penumbra do teu quarto
O meu brilho é intenso
Como um fogo fátuo.

Do corpo à sombra
Vai um abismo
Que a luz desconhece
Mas insistentemente procura.

Aí dorme um segredo
Que só a carne conhece;
Das trevas nasce a luz
Mas a luz sempre às trevas regressa.

Na penumbra do teu quarto
O meu brilho é intenso
Como um fogo fátuo.

DESTILO ÓDIO
[Adolfo Luxúria Canibal - Zé dos Eclipses / Mão Morta]


Odeio o teu esqueleto ciumento
E os seus ornamentos de suicida

Destilo ódio!

Odeio as tuas tesouras perversas.

Destilo ódio!

Odeio a colecção de animais embalsamados
Que escondes nas gavetas do teu quarto.

Destilo ódio!

Odeio essas peçonhentas mãos de bruxa
E a obscenidade das tuas unhas.

Destilo ódio!

Odeio-te amuleto maligno que me intoxicas os sonhos
Com esse hálito pérfido que até o metal corrompe.

Destilo ódio!

Odeio-te barca sonâmbula.

Destilo ódio!

Odeio-te farol esclerosado
Onde a luz cresce mutilada.

Destilo ódio!

Odeio-te morte mansa
Que forras de veludo as paredes desta alcova.

Destilo ódio!

Odeio-te maldita celerada.

FADO CANIBAL
[Adolfo Luxúria Canibal / Mão Morta]


Das ternas horas do passado resta a penumbra
Em espelhos de bruma a memória reflectindo
Sangrentas rosas de um amor cruel.

CRISTINA VAI ÀS COMPRAS

INSTRUMENTAL

MARIA, OH MARIA
[Adolfo Luxúria Canibal / Zé dos Eclipses]


Maria, no regresso a casa
Vi dois elfos a lutar,
Oh Maria, e dois outros a sangrar.

As trevas estão por aí, escondidas,
À espera que eu apague a luz
Para se lançarem sobre mim.

Maria, no regresso a casa
Vi dois olhos a brilhar,
Oh Maria, e dois outros a cegar.

As trevas estão por aí, escondidas,
À espera que eu apague a luz
Para se lançarem sobre mim.

Maria, tenho medo, medo
Do que pode acontecer,
Oh Maria, do que está para ocorrer.

As trevas estão por aí, escondidas,
À espera que eu apague a luz
Para se lançarem sobre mim.

É UMA SELVAJARIA
[Herberto Hélder - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]


Djá i dju nibá u
I dju nibá i dju nibá u
Djá i dju nibá i ná ê nê ná
I djá i nai ni ná
I dju nibá u
I dju nibá i dju nibá u
Djá i dju nibá i djá ê nê ná

É uma selvajaria!

SANTANA MENHO

INSTRUMENTAL

FREAMUNDE ACAPULCO
[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]


Vi homens quererem a morte
Por terem morto o seu amor.
Que assombro lhes apressa o passo?
Que álcool provoca tal ardor?
Não há palavras que nos digam
Quão funda pode ser a dor.

Muitas vezes basta um olhar
Ou um silêncio, um gesto apenas...
Logo o sonho se desmorona
Turvando as mentes mais serenas.

Vi homens quererem a morte
Por terem morto o seu amor.

FACAS EM SANGUE
[Adolfo Luxúria Canibal / Zé dos Eclipses]


Vivia na temperatura tépida dos lençóis
Aquele que dava pelo estranho nome
De Amor. Às vezes soltava-se
E percorria pela mão
Dos adolescentes ruas desertas, sombras
Escuras e conspiradoras - soltou-se
O Amor - alguém gritava.

E vinha o vermelho e invadia o vermelho
E assanhavam-se os gatos conscientes
Da invasão da sua noite
Solitária. Depois apagava-se
A última luz da última janela e desaparecia
O Amor na tépidez dos lençóis.

Ficava a lua, ficava
O luar azul a reflectir perigosamente
Nas lâminas das facas ensaguentadas
Dos adolescentes...

ARLEQUIM

INSTRUMENTAL